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A
execução de um piso industrial compreende a realização
de uma série de etapas e serviços e envolve uma equipe
de profissionais multidisciplinares. O projetista do piso de concreto
deve possuir um conhecimento amplo de todas essas etapas e serviços
de modo que ele possa com essa visão holística, especificar
os parâmetros de desempenho e critérios de aceitação
de cada elemento do sistema. De modo simples pode-se dizer que o projeto
do piso deve contemplar no seu dimensionamento e detalhamento quatro
questões básicas que determinam o desempenho do piso
industrial:
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Fissuras
e recalques:
A ocorrência de recalques e fissuras estruturais pode envolver
problemas relacionados ao solo, sub-base, dimensionamento do piso
e ao carregamento atuante. O projetista deve ser capaz de identificar
em cada obra todos os carregamentos atuantes e mediante a análise
profunda do solo, definir pela necessidade de reforço do
subleito e o tipo de sub-base, avaliar os diferentes sistemas construtivos
e dimensionar o piso para cada uma das alternativas possíveis.
Deve ainda conhecer as características e limitações
de cada um destes sistemas a fim de que a fissuração
por retração seja minimizada. Isto requer um conhecimento
das propriedades do concreto além do emprego de detalhes
construtivos específicos. Por outro lado, a falta de experiência
de campo na execução de pisos industriais em diferentes
condições tem se mostrado responsável por projetos
pouco detalhados, materiais inadequados e incompatíveis com
o processo de execução adotado.
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Tolerâncias superficiais:
A qualidade da superfície do concreto (ou revestimento) definida
pelo tipo de acabamento, resistência mecânica e pelas
exigências com relação aos níveis serão
fatores determinantes no desempenho do piso. Desta forma, o projetista
deve ser municiado pelo cliente/usuário de todas as exigências
do piso para que a operação fabril ou logística
sejam garantidas. Os fornecedores dos equipamentos devem ser consultados
e interagir com o projetista do piso.
O conhecimento da futura utilização do piso, suas
necessidades e tolerâncias em termos de nivelamento e planicidade,
bem como o conhecimento extenso dos procedimentos executivos necessários
para superação dessas necessidades e da capacidade
dos diferentes executores, permite ao projetista definir o melhor
sistema construtivo (piso de concreto simples, armado, com fibras
ou protendidos) e a forma de execução (em faixas estreitas,
largas ou jointless) mais adequada em cada caso. Não são
raras as situações onde o projeto mal concebido define
sistemas e formas de execução conflitantes com as
condições de execução e as tolerâncias
exigidas. Sabendo-se que o empenamento das placas é uma patologia
presente na maioria dos pisos e que interfere na utilização
do piso, o projetista deve ter conhecimento dos fatores envolvidos
e das ferramentas disponíveis para minimização
do problema e das suas conseqüências.
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Resistência à abrasão:
Não basta um grande conhecimento das teorias de dimensionamento
para que o projetista garanta um elevado nível de serventia
de um piso de concreto ao longo de sua vida útil. O desgaste
superficial é uma patologia muito mais freqüente em
pisos industriais do que os recalques ou fissuras estruturais, e
podem facilmente comprometer seu valor funcional ou estético.
Ainda assim, muitos profissionais preocupam-se exageradamente somente
com o cálculo da espessura do piso. Por isso, uma boa noção
de tecnologia de materiais (cimento, adições minerias,
aditivos, etc.), das propriedades do concreto, de diferentes sistemas
de endurecimento superficial e dos procedimentos executivos é
fundamental para que o piso seja corretamente projetado. O projeto
deve contemplar materiais e procedimentos executivos que sejam apropriados
às condições da obra.
Por exemplo, enquanto que na maioria das situações
a utilização das adições minerais pode
resultar num grande incremento do desempenho do concreto, especificamente
em condições climáticas muito adversas as desvantagens
podem igualar os benefícios na aplicação em
pisos industriais desempenados mecanicamente. Da mesma forma, os
endurecedores cimentícios (minerais ou metálicos)
que proporcionam grande incremento da durabilidade da superfície
do piso devem ser especificados somente quando há condições
para que sejam devidamente lançados e incorporados na superfície
do concreto.
Esse discernimento do projetista dos diferentes materiais e seu
comportamento em condições distintas de execução
ajuda a evitar que problemas de concepção equivocada
do piso sejam transferidos para a obra.
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Durabilidade das juntas:
Mais do que calcular ou definir as dimensões das placas,
o projetista deve saber avaliar as conseqüências de tal
escolha. A simples execução de um piso com placas
grandes não garante que os problemas de juntas sejam minimizados.
Cuidados especiais na especificação, seleção
de materiais e dosagem do concreto devem ser tomados a fim de que
a retração seja reduzida, e com ela os problemas de
fissuração e empenamento. A retração
excessiva pode acarretar a abertura excessiva das juntas bem como
causar o empenamento demasiado de bordas e cantos das placas. Em
placas empenadas as juntas muito abertas são difíceis
de tratar e normalmente apresentam desempenho insatisfatório
frente ao tráfego de veículos.
O projetista deve se basear no layout da futura utilização
do galpão para definição do projeto geométrico,
procurando esconder as juntas, principalmente as construtivas, dos
corredores de maior tráfego. No projeto do piso devem estar
indicados claramente os materiais e procedimentos para o tratamento
das juntas. O esborcinamento de juntas, em parte fruto de um projeto
geométrico falho e do selamento inadequado, é talvez
a mais freqüente e séria patologia em galpões
logísticos.
Todas
as questões abordadas anteriormente são influenciadas
tanto pelo projeto do piso industrial como pela execução
em si. Ao longo das publicações da Anapre procurar-se-á
discutir os elementos de projeto e de construção que
podem maximizar o desempenho do piso e minimizar a possibilidade
de ocorrência das situações abordadas acima.
Dada a complexidade e particularidade do tema que consideramos que
o projeto de piso é uma especialidade diferente do projeto
de edificações verticais. Envolve conhecimentos específicos
que o calculista de concreto armado comum normalmente não
possui. Ao passar a projetar pisos industriais tal profissional
deve buscar a especialização necessária para
que projetos bem detalhados possam ser elaborados e as necessidades
dos clientes e usuários dos pisos sejam superadas.
Além dos aspectos abordados, espera-se do projetista: apresentação
de soluções otimizadas conciliando redução
de custo e segurança (durabilidade), imparcialidade (independência
de fornecedores e aplicadores) e busca contínua de novas
tecnologias (aprimoramento).

Marcel
Aranha Chodounsky
Agosto/2008
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