Esta patologia é caracterizada pelo enrijecimento prematuro da camada superficial do concreto (daí o termo em inglês “crusting” que significa “casca”), sendo que as camadas inferiores não apresentam a mesma rigidez ou resistência, fazendo com que haja grandes deformações da “casca” superficial com a entrada das acabadoras mecânicas. Este fenômeno conhecido como “borrachudo” descreve o comportamento elástico do concreto, semelhante ao que ocorre na compactação de solos com excesso de umidade.

O problema ocorre com o ressecamento superficial do concreto, que cria a falsa impressão de que é o momento correto para início da flotação. Tentando-se então, iniciar as operações de acabamento neste momento, verifica-se que o concreto das camadas inferiores não suporta os pesos das acabadoras, tendo como conseqüência a ruptura desta casca, resultando em uma superfície bastante fissurada e ondulada (há perda acentuada de planicidade). Na grande maioria das vezes, há comprometimento estético (fissuras e ondulações) e funcional (níveis de planicidade extremamente baixos).

Esta patologia está associada ao emprego de acabadoras mecânicas, que devido ao grande peso conduzem à ruptura da camada superficial nos casos de borrachudo. Portanto, é pouco provável que este tipo de problema seja verificado em concretagens de pisos ou pavimentos de concreto com acabamento “vassourado” ou “lonado”, no qual não há a utilização de equipamentos pesados sobre o concreto recém-endurecido.

A origem desta patologia está relacionada com fatores que conduzem a um endurecimento diferencial, entre a fina camada superficial e o restante do concreto. Temperatura da sub-base, condições climáticas (temperatura, umidade relativa, vento e sol) e a própria dosagem do concreto integram a lista de fatores que podem gerar condições para a ocorrência do fenômeno do “borrachudo” (Suprenant, 1997,a).

Concretagens sobre sub-bases frias acarretam em um endurecimento mais lento da camada inferior do que o concreto próximo da superfície. Na parte inferior, além da temperatura menor (causada pela baixa temperatura da base), no caso de lançamento do concreto diretamente sobre uma camada deslizante (lona plástica), não ocorre a perda de água o que conduz a uma velocidade menor de endurecimento. Na superfície exposta do concreto (face superior), ocorre a subida de água de exsudação com posterior perda por evaporação, além do aumento da temperatura gerada pela temperatura ambiente.

Temperatura elevada do ar, baixa umidade relativa, exposição direta da placa ao sol e vento, podem conduzir para o aparecimento do problema de “borrachudo” com o ressecamento prematuro e rápido da superfície do concreto. Logo, em concretagens a céu aberto a uma probabilidade maior de ocorrência deste tipo de patologia.

Algumas características do traço do concreto podem contribuir para a ocorrência de “borrachudo”, particularmente àquelas relacionadas à exsudação do concreto. Concretos com baixa taxa de exsudação tendem a favorecer o aparecimento desta patologia (Suprenant, 1997,a). A exsudação do concreto é reduzida com incorporação de ar, elevado teor de finos, uso de adições minerais de elevada finura (sílica ativa ou metacaulim, por exemplo) e com a utilização de concretos com consistência mais seca (às vezes associado ao emprego de aditivos superplastificantes). Os aditivos retardadores podem ser úteis para atrasarem o início de pega do concreto ou para estender o tempo disponível para realização das operações de acabamento (“janela de acabamento”). Contudo, o retardamento excessivo pode causar o aparecimento de “borrachudos” (crusting) ou fissuras de retração plástica.

A recuperação do piso com problemas de fissuração e perda de planicidade ocasionada pelo fenômeno de “borrachudo”, compreende na remoção parcial (reparos de pequena profundidade) ou na remoção total do concreto na área afetada, sendo ambas as soluções bastante onerosas.

Algumas medidas podem ser tomadas com intuito de minimizar o risco de aparecimento da patologia, ou mesmo como forma de minimizar a sua incidência. Com relação à questão da temperatura baixa da base (em regiões frias), pode-se adotar o procedimento de atrasar as concretagens para o período de temperatura maior. Em situações de temperatura elevada e baixa umidade relativa do ar, pode-se realizar aspersão de água (ou preferencialmente aditivo redutor de evaporação) sobre o concreto (nebulização) com objetivo de elevar a umidade ao redor da placa de concreto, atentando-se para não lançar água diretamente sobre o concreto, mas sim para cima (o objetivo não é “molhar” o concreto e sim aumentar a umidade no entorno do piso). Após o lançamento, com o concreto ainda fresco e antes do acabamento, pode-se cobrir com lona plástica a placa, evitando a incidência direta de sol e vento, além de reduzir a perda de água do concreto (Suprenant, 1997,a) (Suprenant, 1997,b). Estas medidas além de contribuírem para redução do risco de ocorrência de “borrachudo”, minimizam a ocorrência de fissuras de retração plástica.

Concretos com tempo de início de pega longo são mais susceptíveis aos efeitos das condições climáticas (sol, vento, temperatura e umidade relativa). Recomenda-se neste caso, reduzir o tempo de início de pega do concreto ao mínimo, tempo este compatível com o processo de lançamento e acabamento.

Referências:

- SUPRENANT, Bruce A, “Troubleshooting Crusted Concrete”, Concrete Construction Magazine, April, 1997.
- SUPRENANT, Bruce A, “Curing during the pour”, Concrete Construction Magazine, June, 1997.
- CHODOUNSKY, Marcel. A. & VIECILI, Fábio A., “Pisos Industriais de Concreto: Aspectos Teóricos e Executivos”, Editora Reggenza, 2007.


Marcel Aranha Chodounky
Junho/2008