Ao lado da capacidade estrutural do piso e da resistência ao desgaste, as tolerâncias de nivelamento (FL) e planicidade (FF) da superfície irão determinar grande parte do desempenho do piso durante sua vida útil. Por isso, a busca da melhoria da planicidade e do nivelamento deve ser motivada pelo requisito funcional do piso e não somente pela melhoria estética.

Pisos com problemas no nivelamento e planicidade acarretam em perda de produtividade com a menor velocidade de operação na movimentação de cargas, menor segurança pelo risco de colisões das empilhadeiras contra a estrutura de porta-pallets em corredores estreitos, além do incremento no custo de manutenção das paleteiras e empilhadeiras.

No caso da planicidade, os procedimentos executivos que mais influenciam no aumento do resultado são as “operações de corte”, realizadas com auxílio de ferramenta denominada rodo de corte.

Esta ferramenta, de construção simples, tem uma importância maior para melhoria da planicidade do piso do que qualquer outra ferramenta ou equipamento conhecida, sendo ainda hoje ignorada ou mal utilizada por muitos executores de piso de concreto.

O rodo de corte é composto por uma régua de alumínio de seção retangular (50 mm x 100 mm), com largura variável entre 3 e 5 metros, fixada a um tubo (cabo prolongável) metálico na sua parte central por um cabeçote articulado. Essa articulação permite que a régua seja inclinada para frente e para trás mediante a rotação do cabo. Tirantes laterais são utilizados para estabilização da régua mantendo-a sempre perpendicular ao cabo metálico. Alguns modelos têm um furo na parte superior e lateral da régua por onde se pode colocar água para aumentar o peso da ferramenta, importante quando utilizada sobre o concreto recém endurecido.

O rodo de corte pode ser inicialmente empregado após a passagem da régua vibratória, ou seja, na fase plástica do concreto. Qualquer depressão encontrada deverá ser imediatamente preenchida com concreto fresco e nivelada com o rodo, e qualquer saliência cortada e igualmente acabada. Procedimento incorreto na passagem do rodo nesta fase pode acarretar no seu afundamento no concreto ainda mole. Nesta fase, o rodo não deve ter nenhum peso adicional além de seu peso próprio. Durante a passagem transversal do rodo de corte sobre o concreto fresco, deve-se incliná-lo para trás no movimento de “ida” (para frente) e no retorno a inclinação deve ser para frente. Inclinações contrárias a esta, fazem com que o rodo de corte penetre no concreto causando grande prejuízo à planicidade.

Além do uso nesta fase, o rodo de corte pode e deve ser empregado após o início da operação de flotação (passagem das acabadoras mecânicas com discos de flotação). Na verdade, é nesta fase que a utilização do rodo de corte traz os maiores benefícios para a diminuição das ondulações do concreto. O rodo de corte deve ser empregado nas duas direções, transversal e longitudinalmente ao eixo da pista ou ainda a 45º, alternando-se sua passagem com a passagem da acabadora mecânica (com discão) durante toda a fase de flotação.

Nesta fase da execução, é imprescindível que o rodo de corte tenha seu peso aumentado (com relação ao seu peso original), com auxílio de água, areia ou barras de aço, para permitir que o concreto já em um estado bastante “duro” possa ser “cortado”. Em concretagens de placas de grande largura é inevitável que o operário tenha que pisar sobre o concreto durante toda a fase de flotação para a passagem do rodo.

Pode-se dizer que é bastante improvável a obtenção de FF acima de 80 sem a realização de tal procedimento. O valor da planicidade é função direta da quantidade e qualidade dessas operações de corte. Ao contrário do rodo de corte, o bull float e as acabadoras de superfície, simples ou duplas, são por natureza equipamentos que induzem a formação de ondulações.

Uma vez que as acabadoras mecânicas, na verdade, atrapalham a planicidade por mais estranho que possa parecer, é crucial que elas sejam operadas no momento correto. Caso o operador da acabadora comece de forma muito prematura o acabamento (flotação), ondulações no concreto mole serão formadas prejudicando a planicidade. Por outro lado, caso a entrada das acabadoras ocorra de forma tardia, a etapa de flotação não “criará” argamassa suficiente para correção da superfície do concreto nas áreas onde as operações de corte indicarem depressões.

Ocorre que nem sempre é fácil nas primeiras concretagens de uma obra determinar o tempo correto para entrada das acabadoras, visto que o mesmo é fortemente influenciado pelas características de pega do concreto (afetadas pelo tipo de cimento e aditivos) e pelas condições de exposição da placa (sol, vento, umidade relativa do ar). Mais uma razão para execução de placa-teste em todo início de obra.

Comparado à execução dos pisos ditos convencionais, a execução de pisos super planos (superflat floors, aqueles de FF > 100) requer que os procedimentos executivos descritos acima sejam repetidos exaustivamente como forma de garantia da obtenção de elevada planicidade. Neste tipo de piso a produtividade na execução do piso é reduzida para cerca de 300 a 500 m² por dia, enquanto que nos pisos convencionais pode-se conseguir facilmente uma produção diária entre 1.000 e 2.000 m².


Adriana Andrade
Maio 2010

Referências: Chodounsky, Marcel A., & Viecili, Fábio A.: Pisos industriais de concreto – Aspectos teóricos e executivos. Editora Reggenza, 2007.

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